Um dos critérios do exame de Física pode suscitar ambiguidades na correcção

Uma das respostas propostas pelo Gabinete de Avaliação Educacional (Gave) para o exame nacional de Física e Química do 11º ano pode suscitar “algumas ambiguidades de interpretação” entre os professores destacados para corrigir a prova.

 

A opinião é do coordenador da divisão de Educação da Sociedade Portuguesa de Física (SPF), em resposta a questões do PÚBLICO. O Gave nega, por sua vez, que exista qualquer problema no critério de correcção proposto para a pergunta 3 do Grupo I, que vale 15 pontos em 100.

Nesta questão, a partir de um texto de Einstein, pede-se aos alunos que fundamentem a afirmação do cientista, segundo a qual tornando mais lisa uma estrada rectilínea e horizontal se pode aumentar a distância percorrida por um “carrinho” que alguém está a empurrar e que depois larga. Esta questão mobiliza conceitos como força resultante (a que é exercida sobre um corpo; que no caso é a força de atrito; aceleração e deslocamento). 

É no que respeita à aceleração (em Física ocorre sempre que existe variação da velocidade) que uma simplificação operada pelo Gave na sua proposta de resposta pode causar “algumas ambiguidades de interpretação” que seriam evitadas “caso tivesse sido feita referência ao módulo da aceleração”, situação que “o bom senso recomendaria”, refere Carlos Portela. Isto porque, acrescenta, “a aceleração é uma grandeza vectorial e quando se refere uma menor aceleração está-se a falar do módulo”. 

O que aliás foi feito pela SPF na proposta de correcção do exame. O módulo corresponde à intensidade. SPF e Gave coincidem na conclusão de que o deslocamento do carrinho será maior na situação enunciada, o que se justifica por ter diminuído a intensidade da força de atrito, mas apresentam os pressupostos de modo diferente.

O Gave, na sua resposta, refere apenas que “ a aceleração do carrinho será menor”. Para Helder de Sousa, director do Gave, não existe qualquer ambiguidade nesta resposta. “Quando se afirma que ‘ a aceleração do carinho será menor’ tal só pode ser entendido havendo diminuição do módulo de aceleração. No contexto da resposta a este item, não se justifica a obrigatoriedade da referência aos termos ‘módulo’ ou ‘norma’ da aceleração”, respondeu ao PÚBLICO.

Mas sendo a Física uma ciência exacta os subentendidos como este podem ser considerados corpos estranhos. “Neste tipo de problemas usualmente assume-se como positivo o sentido do movimento. Como se trata de um movimento retardado [o valor da velocidade diminui quando o carrinho deixa de ser empurrado] a componente escalar da aceleração tem sinal oposto ou seja, é negativa. De acordo com a convenção “usual” a esta torna-se maior pois aproxima-se do zero”, explica Carlos Portela. 

Sendo assim, os alunos que realizaram o exame poderão ter sustentado que “a aceleração é negativa mas aproxima-se de zero se a estrada ficar mais lisa”. Ora isto corresponde de facto a um aumento da aceleração, e portanto o contrário do que está estabelecido no critério do GAVE.

Carlos Portela espera que os professores que estão a corrigir as provas tenham em conta os vários cenários e lembra que "o fundamental é a coerência da resposta do examinando". 

O PÚBLICO tentou em vão apurar se foi feito alguma chamada de atenção nesse sentido.

fonte:http://www.publico.pt/

publicado por adm às 12:22 | comentar | favorito